Heretics – I
Artigo generosamente cedido por Ieda Marcondes de seu Tumblr: http://iedamarcondes.tumblr.com
Desde criança que meu método de estudo é fazer resumos. Para realmente gravar algo na memória, eu não consigo apenas ler. Eu tenho de ler, escrever, fazer esquemas e talvez gravar uma imagem de como escrevi, como estava minha letra, que cor de caneta eu usei ou em que parte estava na folha de papel. Era uma questão de transformar algo alheio em algo meu, em criar algum tipo de experiência pessoal relacionada àquilo e realmente tentar incorporar seja lá o que eu estivesse estudando.
Assim sendo, pensei em fazer pequenos resumos de “Heretics”, de G. K. Chesterton, não porque eu possa explicar o livro ou saiba comentar alguma coisa que não tenha sido comentada, mas porque eu quero sincera e humildemente estudá-lo, ou seja, quero tentar guardá-lo comigo para sempre que for necessário em minha vida.
É uma tentativa apenas. Algo que quero fazer por mim e coloco aqui disponível caso faça sentido para mais alguém também.
OBS.: Meu livro é em inglês, mas eu não sou tradutora. Perdoem qualquer amadorismo.
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A palavra “heresia” não mais significa estar errado; significa praticamente ser lúcido e corajoso. A palavra “ortodoxia” só não significa mais estar certo; significa praticamente estar errado. Isto quer dizer que as pessoas se importam menos se elas estão filosoficamente corretas. Pois um homem deveria se confessar louco antes de se confessar um herege.
A idéia moderna é a de que a verdade cósmica é tão irrelevante que não importa o que qualquer um diga. Mais e mais discutimos sobre detalhes em arte, política e literatura, mas não podemos falar do universo, não podemos fazer generalizações. A regra de ouro é a que não existe regra de ouro. Tudo importa – menos tudo.
Nunca houve tão pouca discussão sobre a natureza do homem como agora, quando, pela primeira vez, qualquer um pode discuti-la. A antiga restrição dizia que apenas os ortodoxos podiam discutir religião. Liberdade moderna significa que ninguém pode discuti-la. Antigamente, era mal visto ser um ateu. Hoje em dia, ainda é mal-visto, mas também é mal visto ser um cristão declarado.
Agora, em nossos tempos, filosofia ou religião, nossa teoria, isto é, sobre as coisas mais fundamentais, foram excluídas dos campos que elas costumavam ocupar. Foram excluídas da arte com o lema de “arte pela arte”. Foram excluídas da política com o lema de “eficiência” que pode ser traduzido como “política pela política”.
Quando tudo em uma sociedade começa a ficar fraco e ineficiente, começam a falar de eficiência. Nenhum dos homens fortes das épocas mais fortes entenderia o que significa trabalhar pela eficiência. A época das grandes teorias era a época dos grandes resultados, os homens eram realmente robustos e eficientes. Com o repudio das grandes teorias, das grandes visões, veio uma raça de homens pequenos na política e homens pequenos nas artes.
O símbolo de nossa época é o homem que é teoricamente prático, e praticalmente mais não-prático do que qualquer teorista. Um homem que se preocupa perpetuamente pensando se essa ou aquela raça é forte, se essa ou aquela causa é promissora, é o homem que nunca acreditará em qualquer coisa pelo tempo que for necessário para dar certo. Não há nada pior para propósitos em andamento do que essa enorme importância atribuída à vitória imediata. Não há nada que falha como o sucesso.
Os dogmatistas Cristãos estavam tentando estabelecer um reino de santidade, e tentando definir, antes de tudo, o que era santo. Mas nossos educadores modernos querem trazer a liberdade religiosa sem tentar estabelecer o que é religião e o que é liberdade.
Ainda existem algumas pessoas – e eu sou uma delas – que pensam que a coisa mais importante e prática em um homem é a sua visão sobre o universo. Por estas razões e muitas outras, eu passei a acreditar em voltar aos fundamentos.
Imagine uma grande comoção na rua por causa de alguma coisa, um poste de luz a gás, digamos, na qual muitas pessoas influentes desejam derrubá-lo. Um monge de cinza, que é o espírito da Idade Média, é consultado sobre a questão, e começa a dizer, na forma árida dos escolares, “Antes de tudo vamos considerar, meu rebanho, o valor da Luz. Se a Luz por si só é boa-” E nesse momento ele é imperdoavelmente golpeado. Todas as pessoas correm até o poste, derrubam-no em dez minutos, e seguem se congratulando umas às outras por sua praticidade não-Medieval. Mas a medida que as coisas avançam nem tudo corre tão facilmente. Algumas pessoas derrubaram o poste porque queriam luz elétrica; algumas porque queriam o ferro velho; algumas porque queriam a escuridão, porque suas ações eram maléficas. Alguns não pensavam muito do poste; alguns o fizeram porque queriam destruir um bem do município; alguns porque queriam destruir alguma coisa. E durante a noite ocorrem guerras, sem nenhum homem saber quem está atacando quem. Então, gradativa e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou no dia seguinte, retorna a convicção de que o monge estava certo no final das contas, e que tudo depende de qual é a filosofia da Luz. Só que o que podíamos ter discutido sob o poste de luz a gás, precisamos agora discutir sob a escuridão.
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