Heretics – II
Artigo generosamente cedido por Ieda Marcondes de seu Tumblr: http://iedamarcondes.tumblr.com
Todos os discursos e ideais modernos são manobras com a intenção de evitar o problema do que é bom. Falamos sobre liberdade, progresso e educação para evitar a discussão do que é bom, como se na realidade falássemos “não vamos decidir o que é bom, mas está decidido que é bom não decidir isso”; ou “não vamos estabelecer o que é bom, mas vamos estabelecer se queremos mais disso”; ou “não conseguimos decidir o que é bom, mas vamos dar isso para nossas crianças”.
Alguns dizem que a foto do fígado de um alcoólatra seria mais eficaz em questões de temperança do que qualquer reza ou louvor. Um jovem pode se manter longe do vício se pensar continuamente na doença ou, então, pode se manter longe do vício se pensar continuamente na Virgem Maria. Pode haver alguma discussão com relação qual método seria mais eficiente, mas não há dúvida com relação qual pensamento seria mais santo. A vantagem da moral mística é que ela é sempre mais alegre do que a moral moderna, que é de uma morbidez incurável.
Religião sempre tratou abertamente sobre o bem e o mal. Na literatura moderna, a percepção do que há de errado se torna cada vez mais abrangente e clara, enquanto a percepção do que é certo se torna cada vez mais nebulosa, ao ponto de se desfazer completamente em dúvida. Dante descreve os três instrumentos morais – Paraíso, Purgatório, e Inferno, a visão da perfeição, da melhora e do fracasso. Ibsen só possui um – Inferno. Ibsen carrega, e sem disfarçar, uma atitude volúvel, vaga e duvidosa com relação ao que seria uma sabedoria verdadeira e virtude nesta vida, o que contrasta com a certeza que ele tem ao apontar algo de mal, alguma falsidade ou ignorância. Em Ibsen, não existe o homem ideal.
Esta omissão, boa ou má, nos deixa com o problema da consciência humana permeada de imagens definitivas do mal e nenhuma imagem definitiva do bem. Todas as épocas passadas se esforçaram para tentar descobrir o que era realmente correto em vida, como seria um homem bom. O mundo moderno fugiu da questão e concluiu que não há resposta para estas perguntas.
O caso do falatório relacionado ao “progresso” é extremo. Todos os ideais de religião, patriotismo, beleza ou prazer puro e simples se encontram com o ideal alternativo de progresso – isto é, para todas as propostas de obter algo que conhecemos, há a alternativa de conseguir muito mais de ninguém sabe o quê. O progresso, em seu verdadeiro sentido, possui um significado legítimo e digno, mas não pode funcionar em oposição aos ideias morais mais precisos. Progresso implica em direção; no momento em que temos a menor dúvida com relação a direção, também nos tornamos duvidosos com relação ao progresso.
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