Heretics – III
Artigo generosamente cedido por Ieda Marcondes de seu Tumblr: http://iedamarcondes.tumblr.com
Não existem assuntos desinteressantes; existem apenas pessoas desinteressadas. A noção de que tudo é poético é uma coisa sólida e absoluta; não é uma questão de modo de falar ou persuasão. Não é somente verdade, é perceptível. Muitos consideram este discurso uma ingenuidade, um mero jogo de palavras, mas é justamente o oposto. As coisas são poéticas apesar dos nomes que elas têm, a realidade dos fatos está inteiramente do lado da poesia.
A coisa mais justa que podemos dizer sobre Rudyard Kipling é que ele nos desempenhou um papel brilhante em recuperar as províncias perdidas da poesia. Ele não se assustou com o ar materialista apegado apenas às palavras; ele penetrou a substância romântica e imaginativa das coisas em si. Ele percebeu a significância e a filosofia do vapor e da gíria. Vapor pode ser um efeito secundário da ciência e a gíria um efeito secundário da linguagem. Mas ele ao menos esteve entre os poucos que perceberam a relação divina destas coisas e soube que onde há fumaça, há fogo – isto é, onde existe a coisa mais baixa, há também a mais pura. Acima de tudo, ele tinha algo para falar, uma visão definitiva das coisas para expressar, e isto em um homem sempre significa que ele é destemido e capaz de enfrentar a tudo. Pois no momento em que temos uma visão do universo, nós o temos.
A mensagem de Rudyard Kipling, na qual ele se concentrou, é a única coisa digna de preocupação nele ou em qualquer outro homem. O militarismo exercia atração em Kipling não pela noção de coragem – pois o militar ganha poder civil na medida em que o civil perde suas virtudes militares e se torna mais manso e tímido – mas a noção de disciplina. A verdadeira poesia em Kipling é a divisão do trabalho e a disciplina em todas as profissões. Tudo é militar no sentindo em que tudo depende de obediência. Em todos os lugares, nossos antepassados conquistaram este mundo com suor e submissão. O ideal de disciplina não é tudo na vida, mas está espalhado pelo mundo todo. A devoção que Kipling tem com relação a isto implica em uma certa sabedoria mundana, vinda da experiência de um andarilho, o que é um dos verdadeiros charmes do melhor de seu trabalho.
A grande lacuna em sua mente é o que pode ser chamado de falta de patriotismo – quer dizer, falta nele a habilidade de se envolver com alguma causa ou comunidade de forma final e trágica; pois toda finalidade deve ser trágica. Ele admira a Inglaterra, mas ele não a ama, pois admite que sua devoção é resultado de reflexão, o que o coloca em um patamar muito diferente da noção de patriotismo puro. Ele é um mestre perfeito da melancolia leve que acomete o homem que olha para seu passado e percebe que foi cidadão de muitas comunidades, o mesmo tipo de melancolia que acomete o homem que foi amante de muitas mulheres. Mas um homem pode ter aprendido muito sobre mulheres ao flertar com elas, e continuar a ser completamente ignorante em questão de primeiro amor; um homem pode conhecer tantos lugares como Ulisses, e continuar ignorante em questão de patriotismo.
No momento em que nos preocupamos profundamente com alguma coisa, o mundo – isto é, todos os outros interesses variados – se torno nossa inimigo. No momento em que amamos qualquer coisa, o mundo se torna nosso adversário. No momento em que estamos enraizados em algum lugar, o lugar some. Vivemos como uma árvore com toda a força do universo.
Kipling, mesmo com todos seus méritos, não tem a paciência de se tornar parte de qualquer coisa. Seu cosmopolitismo é sua fraqueza, e esta é expressada de forma esplêndida em um de seus melhores poemas, “A Sextina do Vagabundo Real”, em que um homem declara ser capaz de suportar qualquer tipo de fome ou horror, mas nunca a presença permanente em um só lugar. Isto é certamente perigoso, pois quanto mais morta e seca e empoeirada é uma coisa, mais ela circula.
A verdade é que a exploração e a ampliação tornam o mundo menor. O telescópio torna o mundo menor; apenas o microscópio torna o mundo maior. O primeiro estuda coisas grandes e vive em um mundo pequeno; o segundo estuda coisas pequenas e vive em um mundo grande. É tentador, sem dúvida, percorrer a Terra, sentir a areia da Arábia e ver os campos de arroz da China, mas estas são civilizações antigas com virtudes estranhas enterradas como tesouros. Se desejamos compreender tais lugares não podemos ser como turistas ou investigadores, mas precisamos ter a lealdade das crianças e a grande paciência dos poetas. Conquistar estes lugares é perdê-los. O homem parado em sua própria horta é o homem com as grandes idéias. Sua mente cria distância, o motor a destrói estupidamente.
As grandes idéias prosperam quando não se concentram em matéria de continentes, mas de compreender alguns homens. Sob esta vasta ilusão de um planeta cosmopolita, a vida verdadeira do homem segue concentrada com esta árvore ou aquele templo, com esta safra ou aquela música, totalmente incompreendida, totalmente intocada. E ela assiste em seu esplêndido paroquialismo, possivelmente com um sorriso, a civilização do motor indo em seu caminho triunfante, ultrapassando tempo, consumindo espaço, vendo tudo e vendo nada, rugindo até a última posse do sistema solar, apenas para achar o Sol proletário e as estrelas suburbanas.
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