Destra Opinião

Heretics – IV

Publicado em Uncategorized por Miguel López da Silveira em 2011-05-07

Artigo generosamente cedido por Ieda Marcondes de seu Tumblr: http://iedamarcondes.tumblr.com

Nos dias alegres de antigamente, antes da ascensão das morbidades modernas, ser incompreendido era considerado uma desvantagem. Podemos duvidar se é sempre ou mesmo geralmente uma desvantagem. O homem incompreendido sempre tem a vantagem perante seus inimigos, pois eles não sabem quais são seus planos ou fraquezas. Bernard Shaw é um monumento moderno da vantagem de ser incompreendido.
A força de Shaw reside em sua consistência. Se ele desaprova anarquia, ele a desaprova nos socialistas e nos individualistas. Se ele desaprova o patriotismo febril, ele o desaprova tanto nos ingleses como nos irlandeses. Se ele desaprova o casamento, ele desaprova ainda mais os laços de um amor sem lei. Se ele ri da autoridade dos padres, ele ri mais alto ainda da pomposidade dos homens da ciência. Se ele condena as irresponsabilidades da fé, ele também condena a irresponsabilidade da arte. Ele agradou ao dizer que a mulher era igual ao homem; e enfureceu a todos ao sugerir que o homem era igual a mulher. Ele é quase que mecanicamente justo; possui a qualidade terrível de uma máquina.
Bernard Shaw jamais aceitaria a crença popular de que um vinho amarelo possa ser “branco”. O fato de que a verdade é mais estranha do que a ficção é onde estão baseados toda a sua força e seu brilhantismo. A verdade, é claro, deve ser mais estranha do que a ficção, pois criamos ficção para melhor nos servir. Ele dizia ver as coisas como elas são; e ele realmente as via, enquanto a sociedade toda não via nada. Mas falta algo muito sério no realismo de Shaw.
Na filosofia de Shaw, os ideias conservadores são ruins não porque são conservadores, mas porque são ideias. Todo ideal impediria ao homem de julgar casos particulares justamente. Toda generalização moral oprimiria ao individual; a regra de ouro é que não existe regra de ouro. Minha objeção está no fato de que isto apenas finge libertar aos homens, mas na verdade os impede de fazer a única coisa que homens fazem. De que adianta dizer a uma comunidade que ela tem toda a liberdade, exceto a liberdade de fazer leis? A liberdade de fazer leis é o que constitui pessoas livres. De que adianta dizer a um homem (ou a um filósofo) que ele tem toda a liberdade, exceto a de fazer generalizações? Fazer generalizações é o que o torna homem. Em resumo, quando Shaw proíbe aos homens de terem morais ideais estritos, ele está agindo como alguém que proíbe aos homens de terem filhos.
A verdade é que é um erro acreditar que a ausência de convicções definitivas dá liberdade e agilidade à mente. O homem que acredita em algo é rápido e esperto, porque ele tem todas as suas armas com ele. Além disso, um homem com uma crença definitiva parece sempre bizarro, porque ele não muda com o mundo. Milhões de homens são chamados de sãos e sensíveis meramente porque sempre acompanham a insanidade da moda, loucura depois de loucura.
Mas a sensação relacionada a Shaw está no desenvolvimento repentino de sua religião do Super-Homem. Ele que sempre pareceu rir de todos os credos em um passado esquecido, descobriu um novo deus em um futuro impensável. Ele que colocou toda a culpa nos ideais, estabeleceu o mais impossível de todos, o ideal de uma criatura nova. O tempo todo, ele estava comparando em silêncio a humanidade com algo não-humano, com um monstro de Marte, o sábio dos estóicos, o homem econômico dos Fabians, com Júlio César, com Siegfried, com Super-Homem. Manter internamente este padrão imperdoável pode ser uma coisa muito boa ou muito ruim, mas não é ver como as coisas como elas são.
Quando vemos o homem como ele realmente é, nós não o criticamos, mas o louvamos; e muito justamente. Pois um monstro com olhos misteriosos e polegares miraculosos, com sonhos estranhos em sua caveira, e uma excêntrica afeição por aquele lugar ou aquele bebê, é realmente uma criatura maravilhosa e formidável. Somente através do hábito arbitrário e arrogante de o comparar com outra coisa é que é possível ficar impassível diante dele. Nesse sentido, Bernard Shaw é desumano. Ele foi infectado até certo ponto pela fraqueza intelectual primária de seu mestre, Nietzsche, com a estranha noção de que um homem melhor e mais forte deveria desprezar as outras coisas. Quanto melhor e mais forte um homem é mais inclinado ele estaria a se curvar perante uma pequena flor. Seria mais fácil acreditar que ele vê as coisas como são se o encontrássemos encarando aos próprios pés com um arrebatamento religioso.
Toda apreciação genuína está em certo mistério de humildade e quase escuridão. Aquele que disse, “Abençoados os que não esperam nada, pois não ficarão decepcionados,” colocou de forma muito inadequada ou quase falsa. A verdade é, “Abençoados aqueles que não esperam nada, pois eles se surpreenderão gloriosamente.” Abençoados aqueles que não esperam nada, pois eles possuirão cidades e montanhas. Abençoados são os humildes, pois eles herdarão a Terra.
O que eu quero dizer é que o único defeito na grandiosidade de Shaw é achar que um grande homem não pode se satisfazer facilmente. Ele é praticamente a exceção para a máxima geral e essencial de que pequenas coisas agradam grandes mentes. Se o homem, como nós o conhecemos, é incapaz da filosofia do progresso, Shaw nos pede não por uma nova filosofia, mas por um novo tipo de homem. É como se uma babá tivesse alimentado um bebê com uma papinha muito amarga por anos e, ao descobrir o gosto, em vez de trocar de papinha, jogasse o bebê pela janela e pedisse um bebê novo.

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