Heretics – V
Artigo generosamente cedido por Ieda Marcondes de seu Tumblr: http://iedamarcondes.tumblr.com
Devemos nos interessar pela parte mais obscura e real do homem, não onde se originam os vícios que ele não demonstra, mas as virtudes que ele não consegue demonstrar. Quanto mais nos aproximarmos dos problemas da história da humanidade com esta caridade intensa e penetrante, menos espaço sobrará para qualquer tipo de hipocrisia. Os hipócritas não nos enganarão se passando por santos; e tampouco nos enganarão se passando por hipócritas.
Os homens se esforçam sobretudo pelas coisas que eles sabem que não merecem. O segredo da humildade, de ter a si mesmo em baixa conta e manter-se mesmo assim preparado para uma infinidade de triunfos desmerecidos, é um segredo tão simples que pode parecer sinistro e misterioso. Humildade é uma virtude tão prática que alguns consideram um vício, confundem com orgulho ou mesmo vaidade. Em resumo, o fracasso desta virtude está em seu sucesso; quando nos tornamos consciente de sua própria força, ela fica mais fraca.
Os homens da ciência estão cada vez mais orgulhosos de sua humildade. Cada vez mais, eles se consideram os portadores da verdade com V maiúsculo, falando dos credos que eles pensam ter destruído, das descobertas que seus predecessores fizeram. Mas um homem puramente moderno surgiu nestes tempos estritamente modernos que carrega consigo uma simplicidade pessoal do antigo mundo da ciência. Um homem da arte, que era um homem de ciência, e que parece ser marcado por essa incrível humildade científica. Estou falando de H. G. Wells.
Difícil acreditar que Wells possa ser humilde escrevendo histórias tão mirabolantes, mas é o homem humilde que faz coisas corajosas, que tem visões sensacionais, e isto por três motivos óbvios: primeiro, ele força a vista muito mais do qualquer outro homem para enxergá-las; segundo, ele fica mais estupefato e arrebatado quando elas surgem; terceiro, ele as narra mais sincera e exatamente, com menos adulteração do lugar mais comum de seu ego pretensioso. Aventuras são para aqueles que não as esperam – isto é, para os mais românticos. Aventuras são para os tímidos: nesse sentido, aventuras são para os não-aventureiros.
O único defeito em Wells é nem sempre perceber que algumas coisas não deveriam ser científicas e nem sempre considerar a alma humana. Um homem deve se casar porque ele se apaixonou e não porque o mundo deve ser populado. Um homem deve comer porque tem bom apetite, e não porque tem de sustentar um corpo. Todas as funções fundamentais de um homem saudável devem ser feitas com prazer e por prazer; elas não devem ser feitas com precaução ou por precaução. Somos saudáveis quando não precisamos de cuidados, quando não encaramos nossas necessidades como necessidades, mas como indulgências.
Em Utopia, Wells diz não acreditar no pecado original. Mas se ele tivesse considerado a alma humana – isto é, considerado a própria alma – descobriria que o pecado original é a primeira coisa a ser acreditada, que uma possibilidade permanente de egoísmo surge do mero fato de se ter um ego, e não de nenhum acidente na educação ou maus tratos. Da mesma forma, ele não consegue perceber que seria impossível impedir conflitos entre civilizações porque é impossível impedir conflitos entre ideais. Se não houvessem mais os conflitos modernos entre nações, haveriam conflitos entre Utopias. Pois a coisa mais superior não tende a unir apenas; mas também à diferenciação. A não ser que você impeça deliberadamente alguma coisa de ser boa, você não pode impedir de que ela mereça ser defendida.
Mas o erro principal de Wells é ainda mais profundo. Sua filosofia é a negação da possibilidade da própria filosofia. Ele diz que não é possível encontrar idéias seguras e confiáveis com as quais podemos descansar com uma satisfação mental e final porque nada dura, nada é preciso e certo. Eu digo que não pode ser verdade que nada no nosso conhecimento não dure. Ou então não chamaríamos de conhecimento. Nosso estado mental pode ser muito diferente do de alguém de milhares de anos atrás; mas não pode ser completamente diferente, ou então não teríamos consciência de uma diferença. Se duas coisas são diferentes, elas também são semelhantes. Se dizemos que alguma coisa muda, é porque alguma coisa se mantém a mesma. O que muda são manifestações ou coisas materiais. O que não muda são qualidades abstratas, a idéia invisível.
Nietzsche resumiu tudo que havia de interessante na teoria do Super-Homem quando disse, “O homem é uma coisa que precisa ser ultrapassada.” Mas a própria palavra “ultrapassar” implica na existência de um padrão comum para nós e para esta coisa nos ultrapassando. Se o Super-Homem for mais homem do que os homens, eles iriam desafiá-lo ou mesmo matá-lo. Mas se o Super-Homem for simplesmente mais Super-Homem, eles poderiam ficar tão indiferentes como ficariam com qualquer outra criatura por aí. Pura força ou mesmo tamanho são padrões; mas somente isto jamais fará com que os homens o achem superior a eles. Gigantes, nos antigos e sábios contos de fada, são vermes. Super-Homem, se não for um bom homem, é verme.
O mundo moderno, assim como Wells, está do lado dos gigantes; o lado mais seguro e, portanto, o mais cruel e mais prosaico. O mundo moderno fala de força e coragem, mas não entende o paradoxo na conjunção destas idéias. O forte não pode ser corajoso. Apenas o fraco pode ser corajoso; e ainda assim, na prática, podemos confiar apenas naqueles que são corajosos o suficiente para serem fortes. Esta é a primeira lei da coragem em prática. Os heróis de antigamente, como Aquiles, eram mais humanos do que a própria humanidade. O Super-Homem de Nietzsche é frio e sem amigos. Aquiles gosta tanto de seu amigo que ele massacra exércitos inteiros na agonia de seu luto. Um grande homem não é um homem que seja tão forte que ele sinta menos do que os outros; um homem é forte quando ele sente mais. Sensibilidade é a definição da vida. Quando Nietzsche diz, “Um novo mandamento eu te dou, ‘seja duro,’” ele está dizendo, “Um novo mandamento eu te dou, ‘seja morto.’”
Esta heresia de louvar o herói imoral impede, eu acredito, de tornar H. G. Wells um dos melhores pensadores desta época. A literatura forte de antigamente é toda feita em louvor do mais fraco. Força é desdenhar a força. A esperança desenganada não é somente a esperança verdadeira, é a única esperança verdadeira da humanidade.
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