Destra Opinião

Heretics – VI

Publicado em Uncategorized por Miguel López da Silveira em 2011-05-07

Artigo generosamente cedido por Ieda Marcondes de seu Tumblr: http://iedamarcondes.tumblr.com

Tudo que é racional é difícil de compreender. Mas aquilo que é irracional qualquer um entende. É por isto que a religião surgiu tão cedo no mundo e se espalhou tanto, enquanto a ciência surgiu tão tarde e não se espalhou nada. A História atesta unanimemente o fato de que apenas o misticismo tem a menor chance de ser compreendido pelas pessoas.
O ritual é mais velho que o pensamento; é mais simples e mais selvagem do que o pensamento. Um sentimento tocando a natureza das coisas não faz apenas os homens sentirem que há certas coisas apropriadas a dizer; faz com que sintam que há certas coisas apropriadas a fazer. Em todos os lugares, a dança religiosa veio antes do hino religioso, e o homem era ritualista antes mesmo de conseguir falar.
Um homem que tem fé deve estar preparado não somente para se tornar um mártir, mas para se tornar um bobo. É absurdo dizer que um homem está pronto para trabalhar e morrer por suas convicções quando ele não está pronto sequer para usar uma guirlanda em sua cabeça.
O filósofo Frederic Harrison nos pede que consideremos a filosofia de Auguste Comte e que ignoremos suas propostas fantásticas de papados, cerimoniais, o novo calendário, os novos feriados e dias santos. Esta parte que os Comtistas consideram absurda é a única parte do Comtismo que faz sentido para mim. É evidente que é impossível venerar a humanidade simplesmente porque sabemos que nós não fizemos as estrelas, o universo. Eu tenho certeza absoluta de que eu não consideraria de forma alguma ler as obras de Comte até o final. Mas consigo facilmente me imaginar com grande entusiasmo acendendo uma fogueira no Dia de Darwin.
Mas nada nesse estilo se sucedeu. Não houveram festivais racionalistas, nenhum êxtase racionalista. Os racionalistas não batizaram ou criaram um novo dia para a alegria. Racionalmente, não existe motivo para não cantarmos e trocarmos presentes no aniversário de Michelangelo. Mas não dá certo. Ao remover o elemento supernatural, sobra apenas o não-natural. O Natal permanece como o único festival a nos lembrar dos tempos, pagãos ou cristãos, em que as alegrias antigas cobriam a terra, quando muitos faziam poesia ao invés de escrevê-las.
Um aspecto muito triste dos pensadores modernos é que temos no Natal uma tradição festiva antiga, sólida e eles acham vulgar. Que nenhum homem se engane; se por vulgaridade estamos nos referindo à fala bruta, comportamento desordeiro, fofoca, brincadeira pesada e muita bebida, vulgaridade sempre houve onde houvesse alegria, onde houvesse fé nos deuses. Credo e mitologia produzem esta vida grosseira e vigorosa, e em troca esta vida grosseira e vigorosa produz credo e mitologia.
A ausência da fé, tanto em suas formas mais altas como as mais baixas, na vida moderna é ocasionada principalmente pelo divórcio da natureza e das árvores e das nuvens. Se recuperarmos a verdadeira Inglaterra, todos se tornarão novamente pessoas religiosas e, se tudo correr bem, supersticiosas.

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