Heretics – VII
Artigo generosamente cedido por Ieda Marcondes de seu Tumblr: http://iedamarcondes.tumblr.com
A única maneira verdadeiramente perigosa e imoral de se tomar vinho é tomando como remédio. Beba porque você está feliz, mas nunca porque você se sente miserável. Nunca beba porque você precisa, pois isto é beber racionalmente, e o caminho para a morte e o inferno. Mas beba porque você não precisa, pois isto é beber irracionalmente, e a saúde antiga do mundo.
Por anos, a sombra e a glória da grande figura oriental esteve presente na literatura inglesa. A tradução de Fitzgerald de Omar Khayyám se concentra no hedonismo sombrio e fugidio de nosso tempo. A bebericagem de Omar Khayyám é ruim não por ser bebericagem, mas por ser bebericagem medicinal. É a bebida de um homem que bebe porque não está feliz. Seu vinho é aquele que se fecha para o universo, não o vinho que o revela. Não é beber poeticamente, que é alegre e instintivo; é beber racionalmente, que é prosaico e indigesto como uma dose de camomila.
Um crítico fez a incrível bobeira de chamar Omar de ateu e materialista. É praticamente impossível um oriental ser qualquer um dos dois; o oriente entende muito bem de metafísica. A objeção real que um cristão filosófico poderia fazer contra a religião de Omar não é a de que ele não dá lugar a Deus, mas a de que ele dá lugar demais a Deus. Ele representa aquele teísmo terrível que não pode imaginar nada além de divindades, e que nega completamente os traços da personalidade e da vontade humana, do livre-arbítrio. Este ceticismo não é nem um pouco o ceticismo que nega a existência de Deus; mas o que nega a existência do homem.
Neste culto da pessimista busca do prazer Rubáiyát é o primeiro; mas não o único. Muitos dos intelectos dos nossos tempos nos pedem que busquemos o mesmo tipo de prazer auto-consciente. Walter Pater disse que nós todos somos sentenciados à morte e que devemos aproveitar cada momento pelo bem do momento. Oscar Wilde nos diz o mesmo com sua poderosa e desoladora filosofia; mas a religião do “carpe diem” não é uma religião de pessoas felizes, mas de pessoas muito infelizes.
É verdade que felicidade aparece em certos momentos passageiros; mas não é verdade que devemos pensar na felicidade como algo passageiro, ou aproveitar o momento pelo bem do momento. Fazer isto é racionalizar a felicidade, e portanto destruí-la. A felicidade, assim como a religião, é um mistério e não deve nunca ser racionalizada. Um apaixonado aproveita o momento não pelo momento, mas pela mulher que ele ama. Um guerreiro aproveita o momento não pelo momento, mas pela bandeira que ele carrega. A causa da bandeira pode ser boba ou passageira; o amor pode não ser verdadeiro e durar uma semana. Mas o patriota pensa na bandeira como algo eterno; o apaixonado pensa em seu amor como algo que não pode acabar. Estes momentos são permeados de eternidade; estes momentos são alegres porque não parecem momentâneos. Uma alegria verdadeira possui um senso de imortalidade.
Nunca houve golpe tão esterilizante contra os homens que amam e riem naturalmente como o “carpe diem” dos estetas. Pureza e simplicidade são essenciais às paixões – sim, mesmo às paixões maléficas. Mesmo o vício requere uma espécie de virgindade. Se queremos ser verdadeiramente alegres, devemos acreditar que há uma alegria eterna na natureza das coisas. Aquilo que chamamos de “bons ânimos” só é possível para aqueles que tem alma, espírito. No final das contas, um homem não pode sentir prazer em nada a não ser a natureza das coisas. No final das contas, um homem não pode aproveitar coisa alguma além de religião.
Dionísio fez vinho, não remédio, mas um sacramento. Jesus Cristo também fez vinho, não remédio, mas um sacramento. Mas Omar fez, não um sacramento, um remédio. Ele festeja não porque a vida é alegre; ele revela que não está contente. Ele diz, “Beba porque você não sabe de onde veio ou por que. Beba porque você não sabe quando vai ou onde. Beba porque as estrelas são cruéis e o mundo sem propósito como um pião. Beba porque nada merece confiança, nada merece ser defendido. Beba porque as coisas não mais se baseiam em igualdade e paz maléfica.” No altar mais alto do Cristianismo há outra figura com o copo de vinho em suas mãos, nos oferecendo. Ele diz, “Beba pois o mundo é vermelho como este vinho, com o escarlate do amor e da ira de Deus. Beba porque os trompetes nos chamam para a batalha e esta é a última bebida. Beba pois este é o meu sangue do novo testamento deixado para você. Beba porque eu sei de onde você veio e porquê. Beba porque eu sei quando você vai e onde.”
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